Esquerda e direita no Brasil: de onde vêm os rótulos, como a ciência política mede e onde ficam PT e PL
O que significam 'esquerda' e 'direita', o PT é comunista, o bolsonarismo é fascista, e onde a pesquisa acadêmica posiciona cada partido?
11/09/1789 → 21/10/2026
- 1.'Esquerda' e 'direita' nasceram da posição dos assentos na Assembleia francesa em 1789 e hoje se referem, grosso modo, a mais ou menos Estado na economia e a igualdade/mudança versus ordem/tradição; a régua acadêmica mais longa para o Brasil (Brazilian Legislative Survey, 1990-2021) posiciona o PT em -0,69 (esquerda, não extrema), o PL em +0,49 (direita, mesma faixa de PP e Republicanos) e Bolsonaro em +0,87 (presidente mais à direita da era democrática); duas outras réguas independentes, o survey de especialistas PREPPS (2018-19, escala 1 a 20: PT 5,04, PL/PR 17,05, Bolsonaro 19,26) e o V-Party/V-Dem (2018, posição econômica 0 a 6: PT 1,39, PL 4,44, PSL 5,37), dão praticamente a mesma ordem.
- 2.Pela definição de Marx, 'comunismo' exige a supressão da propriedade privada (burguesa) e o crédito centralizado em banco estatal monopolista; o traço constitucional comum a Cuba e China não é a abolição literal de toda propriedade privada (a China declara 'inviolável' a propriedade privada legal, art. 13; Cuba reconhece a propriedade privada 'complementar'), mas a propriedade pública dos meios de produção como base do sistema e a direção do Partido Comunista inscrita na Constituição; o Brasil não tem nenhum dos dois: o PT governa com propriedade privada, recorde de concessões, Banco Central autônomo, carga tributária de nível OCDE (33,7% do PIB) e eleições competitivas; suas políticas sociais são, na definição acadêmica, 'elementos socialistas' de um híbrido capitalista, o padrão social-democrata. Checagens classificam como falsas as peças que dizem que Lula 'assumiu ser comunista'.
- 3.O bolsonarismo é classificado pela literatura como 'direita radical populista' (nativismo, autoritarismo, populismo); 'fascista' é tese acadêmica minoritária e contestada, e peças que o associam ao nazismo foram checadas como falsas; a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe (2025) é o fato que desloca o núcleo bolsonarista para a 'direita extrema' de Mudde (rejeição da regra da maioria), mas o PL como partido disputa eleições e tem a maior bancada do Congresso.
Quem é quem
Toque numa pessoa na linha do tempo para ver só o que ela fez.
Luiz Inácio Lula da SilvaPresidente (PT); autor da Carta ao Povo Brasileiro (2002); alvo da acusação de 'comunista'.Partido atual: PT
Jair BolsonaroEx-presidente; medido em +0,87 na BLS (presidente mais à direita da era democrática); condenado por tentativa de golpe em 2025; alvo do rótulo 'fascista'.Partido atual: PL
Flávio BolsonaroCandidato do PL em 2026; agenda liberal na economia e conservadora/punitivista em segurança e costumes.Partido atual: PL- Karl Marx e Friedrich EngelsAutores do Manifesto do Partido Comunista (1848), referência para o teste do rótulo 'comunista'.
- Cas MuddeCientista político; distingue 'direita radical' (aceita a regra da maioria) de 'direita extrema' (rejeita).
- Robert PaxtonHistoriador; autor de 'The Anatomy of Fascism' (2004), uma das definições-padrão de fascismo.
- Cesar Zucco e Timothy PowerAutores da Brazilian Legislative Survey (BLS), régua de posições partidárias usada aqui.
- Camila RochaCientista política (USP); estuda a 'nova direita' e estima o núcleo duro do bolsonarismo em 12-15% do eleitorado.
- Luiz Carlos PrestesLíder da Intentona de 1935, 'mito fundador da ameaça comunista' no Brasil.
- Lilia SchwarczHistoriadora e antropóloga; classifica o bolsonarismo como 'movimento retrógrado, de extrema direita, populista e tecnocrata' (2021), sem usar 'fascismo' nas falas localizadas.
- Esther SolanoSocióloga (Unifesp); descreveu o movimento como 'espécie de pinochetismo' (2018) e organizou 'O ódio como política'.
- Valdemar Costa NetoPresidente do PL desde 2000; conduziu o partido do Centrão ao bolsonarismo (filiação de Bolsonaro em 30/11/2021).Partido atual: PL
Linha do tempo
O Terceiro Estado se proclama Assembleia Nacional após ser impedido de reunir-se pelo rei; a divisão em lados é posterior.
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- jun/1789 — O Terceiro Estado se proclama Assembleia Nacional após ser impedido de reunir-se pelo rei; a divisão em lados é posterior. fonte
- 11/09/1789 — Debate sobre o veto real: defensores do veto absoluto à direita do presidente da Assembleia; limitadores do poder real à esquerda. fonte
- 1848 — Manifesto do Partido Comunista, cap. II. “O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.” (Marx e Engels) fonte
- 1848 — Manifesto do Partido Comunista, cap. II: a fórmula única. “Neste sentido, os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão [Aufhebung] da propriedade privada.” (Marx e Engels) fonte
- 1848 — Manifesto, cap. II: entre as 10 medidas, a centralização do crédito. “centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo” (Marx e Engels) fonte
- mar/1922 — Fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), com Astrojildo Pereira entre os fundadores. fonte
- nov/1935 — Intentona Comunista liderada por Prestes; torna-se o 'mito fundador da ameaça comunista'; Prestes fica preso por nove anos. fonte
- nov/1937 — Sob pretexto do Plano Cohen (complô comunista), instaura-se o Estado Novo. fonte
- 1947 — Registro do PCB e mandato de Prestes cassados; partido ilegal até 1985; serviu de pretexto para o golpe de 1964. fonte
- 1980 — Fundação do PT (TSE nº 13). fonte
- 25/06/1985 — Fundação do PL original por Álvaro Valle. fonte
- 1989 — Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB); PCdoB aliado do PT no plano federal desde então. fonte
- 25/04/1995 — Umberto Eco, conferência 'Ur-Fascism' (Columbia; publicada na NYRB em 22/06/1995): 14 traços; basta um para o fascismo 'coagular'. fonte
- 15/03/1999 — Emenda à Constituição da China: 'no estágio primário do socialismo' a 'propriedade pública é o pilar e diversas formas de propriedade se desenvolvem conjuntamente' (art. 6: propriedade pública socialista dos meios de produção como base). fonte
- 2002 — Coligação de Lula em 2002 (e em 2006) inclui o PL, partido do vice José Alencar, ao lado de PT, PCdoB e PCB (lista de partidos do Manifesto Project). fonte
- 22/06/2002 — Carta ao Povo Brasileiro. “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país” (Lula (Carta ao Povo Brasileiro)) fonte
- 2004 — Robert Paxton, 'The Anatomy of Fascism' (p. 218): definição de fascismo, em transcrição didática do OER Project; a mesma frase é citada por Ruth Ben-Ghiat (HNN, 07/12/2022), que registra que o 6 de janeiro de 2021 'changed Paxton's mind' sobre aplicar o termo a Trump. “Fascism is a form of political behavior marked by obsessive preoccupation with community decline, humiliation, or victimhood and by compensatory cults of unity, energy, and purity, in which a mass-based party of committed nationalist militants, working in uneasy but effective collaboration with traditional elites, abandons democratic liberties and pursues with redemptive violence and without ethical or legal restraints, with the goals of internal cleansing and external expansion” (Robert Paxton) fonte
- 2004 — Fundação do PSOL, cisão do PT 'em protesto contra a moderação do PT durante o primeiro governo Lula'. fonte
- 26/10/2006 — Fusão PL + PRONA cria o Partido da República. fonte
- 2009 — Constituição da Venezuela (1999, rev. 2009), art. 115: garantia do direito de propriedade; expropriação só por utilidade pública, sentença e indenização justa. “The right of property is guaranteed” (Constituição da Venezuela, art. 115) fonte
- 2018 — Constituição da China (1982, rev. 2018), art. 1: liderança do Partido Comunista. “The leadership of the Communist Party of China is the defining feature of socialism with Chinese characteristics” (Constituição da China, art. 1) fonte
- 2018 — Constituição da China, art. 13: a propriedade privada legal é protegida (nuance ao teste 'abolição da propriedade privada'). “Citizens' lawful private property is inviolable” (Constituição da China, art. 13) fonte
- 2018 — V-Party 2018, posição econômica (0 a 6): PT 1,39; PSB 1,84; PDT 1,92; MDB 3,66; PSD 4,18; PSDB 4,20; PR/PL 4,44; Republicanos 4,52; DEM 4,59; PP 4,79; PSL 5,37 (valores extraídos do dataset via pacote oficial vdemdata). fonte
- 2018 — V-Party 2018, dimensão democrática: PSL com antipluralismo 0,95 (de 1), pluralismo 1,89 e rejeição da violência 1,92 (de 4); PT com antipluralismo 0,03, pluralismo 3,90 e índice de populismo 0,78 (o maior do sistema); PR/PL com antipluralismo 0,17. fonte
- 2018 — V-Party 2018: PSL com antipluralismo 0,95 (o maior do sistema) e rejeição da violência 1,92 de 4; PR/PL 0,17. fonte
- 04/10/2018 — Esther Solano (IHU/Unisinos) explica por que ex-eleitores de Lula votaram em Bolsonaro (personalismo, busca de 'líder forte'); em 04/11/2018 descreve o movimento como 'espécie de pinochetismo' (Vermelho). fonte
- 2019 — Constituição de Cuba (2019), art. 18: sistema econômico socialista baseado na propriedade de todo o povo. “The Republic of Cuba is governed by a socialist economic system based on ownership by all people of the fundamental means of production” (Constituição de Cuba, art. 18) fonte
- 2019 — Cas Mudde, 'The Far Right Today': distinção entre direita extrema (rejeita a regra da maioria) e direita radical (aceita, mas se opõe à democracia liberal nos direitos das minorias e na separação de poderes), p. 19. fonte
- 2019 — Emilio Gentile: 'um equívoco tratar figuras políticas de extrema-direita como Donald Trump e Jair Bolsonaro como fascistas'. fonte
- 2019 — Esther Solano, working paper 'La Bolsonarización de Brasil' (IELAT). fonte
- 24/02/2019 — Constituição de Cuba aprovada em referendo (86,85%): sistema econômico socialista baseado na propriedade de todo o povo sobre os meios fundamentais de produção; Partido Comunista como 'força dirigente superior da sociedade e do Estado'. fonte
- 07/05/2019 — TSE aprova a volta do nome Partido Liberal. fonte
- 2020 — Manifesto Project Dataset: South America (versão 2020b): 28 eleições, 64 partidos, 104 manifestos; a lista de partidos registra o PL nas coligações de Lula em 2002 e 2006. fonte
- mai/2020 — Aos Fatos: falso que apoiadores de Bolsonaro fizeram saudação nazista no Alvorada (gesto religioso). fonte
- 26/06/2020 — Oito acadêmicos ligados à USP publicam 'Por que assistimos a uma volta do fascismo à brasileira'; PUC-SP mantém projeto 'Bolsonarismo: o novo fascismo brasileiro'; Observatório da Extrema Direita (Casarões, Magalhães, Caldeira Neto) pede cautela. fonte
- 2021 — BLS 2021: PT -0,691; PSOL -0,874; PCdoB -0,822; PL +0,493; PP +0,510; Republicanos +0,550; Novo +0,711; PSL +0,803; MDB +0,137; PSDB +0,157. fonte
- 2021 — Presidentes (Tabela C2): Lula I-II -0,41; Dilma II -0,50; Temer 0,55; Bolsonaro 0,87. fonte
- 07/02/2021 — PREPPS Latam V2 publicado no Harvard Dataverse (surveys de especialistas no outono de 2018 e meados de 2019; questionário em português no Brasil): PT 5,04; PR (atual PL) 17,05; Bolsonaro 19,26; PSOL 1,66 (escala 1 a 20). “Please locate each party on a general left-right dimension, taking all aspects of party policy into account. Left (1) Right (20)” (Questionário PREPPS) fonte
- 22/02/2021 — Lilia Schwarcz, em debate na Agência Pública, sobre o bolsonarismo. “O bolsonarismo é um movimento retrógrado, de extrema direita, populista e tecnocrata” (Lilia Schwarcz) fonte
- 16/08/2021 — Camila Rocha: 'casamento entre nova direita e bolsonarismo sempre foi frágil'; núcleo duro de 12-15% do eleitorado. fonte
- 30/11/2021 — Jair Bolsonaro filia-se ao PL. fonte
- 2022 — Tarouco, 'Esquerda, direita e eleições presidenciais no Brasil' (Estudos Avançados 36(106)): 23 programas de 1994 a 2018; polarização máxima em 2018; a RILE não é usada. “O MP também calcula a escala RILE, da dimensão esquerda-direita, que não foi incorporada na presente análise por já ter sido questionada em outros trabalhos” (Gabriela Tarouco (nota 3)) fonte
- 2022 — PT, PCdoB e PV formam a federação Brasil da Esperança. fonte
- fev/2022 — V-Party v2 (V-Dem): definição da variável de posição econômica (codebook, 3.2.13, v2pariglef). “Parties on the economic left want government to play an active role in the economy. This includes higher taxes, more regulation and government spending and a more generous welfare state. Parties on the economic right emphasize a reduced economic role for government: privatization, lower taxes, less regulation, less government spending, and a leaner welfare state.” (Codebook V-Party v2) fonte
- fev/2022 — Aos Fatos: falso vídeo que atribui a Bolsonaro ter se alistado em exército nazista (CQC, 2012, editado). fonte
- 21/07/2022 — Comprova: enganoso que Lula quer implantar o comunismo chinês no Brasil. fonte
- 2023 — Zanotti, Rama & Tanscheit (Opinião Pública): o voto em Bolsonaro em 2018 se explica por queixas culturais-ideológicas (segurança, religião, antipetismo, baixo apego à democracia), não econômicas; renda mais alta associou-se ao voto em Bolsonaro. fonte
- 2023 — Zanotti, Rama & Tanscheit: Bolsonaro como líder da direita radical populista; antipetismo como principal variável do voto em 2018. fonte
- 16/05/2023 — Petrobras anuncia o fim da paridade de importação (PPI, vigente desde 2016). fonte
- 29/07/2023 — Lula, na abertura do Foro de São Paulo, diz que ser chamado de comunista não o ofende, mas ser chamado de nazista ou terrorista sim (paráfrase). fonte
- 07/08/2023 — SEP, verbete 'Libertarianism' (revisão de 07/08/2023): a liberdade individual como valor supremo; Estado mínimo de Nozick. “Libertarians take individual freedom as the paramount political value” (Stanford Encyclopedia of Philosophy) fonte
- 22/09/2023 — Lula, em reunião com Li Xi (PC Chinês), diz que o PT tem 'fortes laços' com o PCCh, em contexto de relações comerciais. fonte
- 2024 — OCDE/CEPAL/BID/CIAT (Revenue Statistics in Latin America and the Caribbean 2026): carga tributária total do Brasil de 33,7% do PIB em 2024, a maior da região; média OCDE 34,1%; média ALC 21,7%. “In 2024, tax-to-GDP ratios in the LAC region ranged from 9.2% in Guyana to 33.7% in Brazil” (OCDE/CEPAL/BID/CIAT) fonte
- 2024 — Banco Mundial: Gini do Brasil 50,3 (2024) contra Suécia 29,3, Dinamarca 29,9, França 31,8, Alemanha 33,7 (2022), Uruguai 40,0 e Chile 43,0; consumo final do governo geral do Brasil 18,8% do PIB (Suécia 26,6; França 24,2; Cuba 24,8). fonte
- jan/2024 — Publicação de Zucco & Power, 'The Ideology of Brazilian Parties and Presidents' (LAPS, DOI 10.1017/lap.2023.24): nove ondas da BLS, 1990-2021. fonte
- 03/08/2024 — Especialistas (CNN Brasil) classificam a Venezuela de Maduro como extrema esquerda autoritária/'autoritarismo competitivo'; nenhum a chama de comunista. fonte
- 30/09/2024 — Aos Fatos: falso que Lula 'assumiu ser comunista'. fonte
- dez/2024 — Latinobarómetro 2024: Brasil entre os países com autoposicionamento médio acima de 5,0 (0 = esquerda, 10 = direita); El Salvador 6,8; México 4,4. fonte
- 18/07/2025 — SEP, verbete 'Conservatism' (revisão de 18/07/2025), §1.3: conservadorismo não é reação. “It is reaction and not conservatism that is inherently authoritarian” (Stanford Encyclopedia of Philosophy) fonte
- 12/08/2025 — Levitsky, no Senado, elogia o STF pela resposta ao 8 de janeiro. fonte
- 11/09/2025 — 1ª Turma do STF condena Bolsonaro (4x1) a 27 anos e 3 meses por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado e danos; trânsito em julgado em 25/11/2025. fonte
- 25/12/2025 — Datafolha (2-4/12/2025, 2.002 entrevistas, margem de 2 p.p., autodeclaração em escala 1 a 7): direita 35%, centro-direita 11%, esquerda 22%, centro-esquerda 7%, 8% não souberam; 22% dos que se dizem de direita votaram em Lula em 2022 e 9% dos de esquerda votaram em Bolsonaro. fonte
- 26/12/2025 — Lula sanciona isenção de IR até R$ 5 mil, imposto mínimo de até 10% acima de R$ 600 mil/ano e 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil/mês (vigência 2026). Obs.: outra nota do projeto registra a sanção em 26/11/2025 (Lei 15.270/2025). fonte
- 27/12/2025 — Galípolo completa um ano no BC 'com uma postura ainda mais ortodoxa do que a de seu antecessor'. fonte
- 2026 — Itaú lucra R$ 46,8 bi em 2025, 'o maior resultado da história de um banco brasileiro'. fonte
- 2026 — Flávio diz que manterá como referência a política econômica liberal de Paulo Guedes: desburocratização, iniciativa privada, redução do Estado. fonte
- 02/01/2026 — Ibovespa fecha 2025 em 161.125,37 pontos (+33,95%, 32 recordes). fonte
- 18/01/2026 — Lula 3 fecha 2025 com 50 leilões federais (26 portos, 22 rodovias, 2 aeroportos), contra 45 de Bolsonaro e 26 de FHC; 84% do investimento em infraestrutura privado. fonte
- 25/02/2026 — SEP, verbete 'Liberalism' (Courtland, Gaus & Schmidtz; revisão de 25/02/2026), §2.1: liberdade e propriedade no liberalismo clássico; §2.2: o liberalismo 'novo' ('welfare state', 'social justice') contesta essa ligação. “For classical liberals — 'old' liberals — liberty and private property are intimately related” (Stanford Encyclopedia of Philosophy) fonte
- 26/04/2026 — 8º Congresso do PT: manifesto define 'horizonte programático o socialismo democrático', com 'acenos ao centro'. “horizonte programático o socialismo democrático” (Manifesto do 8º Congresso do PT) fonte
- jul/2026 — Lupa publica 'Anatomia da desinformação eleitoral' (1º semestre de 2026); RSF registra deepfakes com falso Jornal Nacional anunciando Flávio presidente. fonte
- 03/07/2026 — Datafolha (jun/2026, registro TSE BR-09956/2026; índice de valores, não pergunta direta): direita 44% (15% + 29% centro-direita), esquerda 39% (13% + 26% centro-esquerda), centro 17%; eixo econômico isolado: 46% esquerda, 28% direita, 26% centro. fonte
- ago/2026 — Flávio: o Bolsa Família 'é direito adquirido do povo brasileiro', mas não deve ser 'o fim da estrada'. “é direito adquirido do povo brasileiro” (Flávio Bolsonaro) fonte
- ago/2026 — Flávio Bolsonaro, em evento na Fiesp, diz que o pai é o 'último obstáculo' contra uma ditadura (literal conforme imprensa). “último obstáculo” (Flávio Bolsonaro) fonte
- 01/08/2026 — Flávio Bolsonaro, na convenção do PL-SC, chama Lula de 'projeto de ditador', diz que vai 'demiti-lo' em outubro e que o Brasil 'não vive mais em uma democracia plena' (literal conforme imprensa). “projeto de ditador” (Flávio Bolsonaro) fonte
- 07/08/2026 — PT registra no TSE o programa de Lula 'Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo' (84 páginas, 13 diretrizes; coligação 'Brasil Pronto Pra Mais'); registro no sistema em 08/08/2026 segundo outra fonte; destaques: redução da jornada de trabalho, Ministério da Segurança Pública, educação em tempo integral. fonte
- 13/08/2026 — Flávio registra no TSE o plano 'Para o Brasil Vencer o Atraso' (76 páginas, 9 eixos). fonte
- out/2026 — PL tem 121 deputados e 29 senadores (Reuters, via Wikipedia). fonte
- 02/10/2026 — Informe Latinobarómetro 2026: Brasil entre os 4 'gobiernos de izquierda' (México, Brasil, Guatemala, Uruguai), separado das 'dictaduras' (El Salvador, Venezuela, Nicarágua) e dos 4 'gobiernos de extrema derecha' (Colômbia, Chile, Peru, Argentina); apoio à democracia no Brasil: 41%. “cuando se ideologiza la calificación de una democracia, se daña la [democracia]” (Informe Latinobarómetro 2026) fonte
- data não verificada — SEP (verbete 'Socialism'): socialismo exige controle social e democrático dos meios de produção; o Estado de bem-estar é híbrido capitalista com 'alguns elementos socialistas'. fonte
- data não verificada — Lula sobre a autonomia do BC. “Se eu tivesse voto, eu era contra. Mas tá aí, vai ficar” (Lula) fonte
- data não verificada — José Dirceu (PT) diz que Flávio 'é golpista como o pai' (literal conforme imprensa). “é golpista como o pai” (José Dirceu) fonte
Capítulo 1 · 1789-06 a 1789-09-11
1789: a origem dos termos
Em 11 de setembro de 1789 a Assembleia Constituinte francesa debateu o poder de veto do rei Luís XVI. Os defensores do veto absoluto (monarquistas, chamados pejorativamente de 'aristocratas') sentaram-se à direita do presidente da Assembleia (o 'côté de la Reine'); os que queriam limitar o veto (representantes do Terceiro Estado e alguns nobres, os 'patriotas') sentaram-se à esquerda. A localização circunstancial conferiu significado político duradouro às posições e os dois polos passaram a se definir mutuamente. O conteúdo que carregam hoje (igualdade vs. hierarquia/ordem; mais vs. menos Estado na economia) é convenção histórica, não definição natural.
Capítulo 2 · 1848 a 2019
O que cada ideologia defende: comunismo, socialismo, social-democracia, fascismo, direita radical
Comunismo (Marx/Engels, 1848): 'O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa'; 'os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão [Aufhebung] da propriedade privada'. As 10 medidas do Manifesto incluem expropriação da propriedade fundiária, 'pesado imposto progressivo', 'abolição do direito de herança', 'centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo' e 'educação pública e gratuita de todas as crianças'. Na prática constitucional, a Constituição de Cuba (2019) baseia o sistema 'on ownership by all people of the fundamental means of production' (art. 18), com o Partido Comunista como 'the superior driving force of the society and the State' (art. 5), mas reconhece a propriedade privada com 'papel complementar' (art. 22); a da China (1982, rev. 2018) diz que a liderança do Partido Comunista 'is the defining feature of socialism with Chinese characteristics' (art. 1) e que a base do sistema é a 'socialist public ownership' (art. 6), mas também que 'Citizens' lawful private property is inviolable' (art. 13). Logo, o traço comum não é a abolição literal de toda propriedade privada, e sim propriedade pública como base + partido dirigente inscrito na Constituição. A Constituição da Venezuela (1999, rev. 2009) não tem nenhum dos dois: 'The right of property is guaranteed' (art. 115). Socialismo (SEP): exige que 'o grosso dos meios de produção esteja sob controle social e democrático'; sem isso é 'estatismo, não socialismo'. Social-democracia: 'domar o capitalismo' via governos eleitos, seguro social e bens públicos; o Estado de bem-estar é híbrido capitalista com 'alguns elementos socialistas'. Fascismo: Paxton (2004, p. 218) o define literalmente como 'a form of political behavior marked by obsessive preoccupation with community decline, humiliation, or victimhood and by compensatory cults of unity, energy, and purity, in which a mass-based party of committed nationalist militants, working in uneasy but effective collaboration with traditional elites, abandons democratic liberties and pursues with redemptive violence and without ethical or legal restraints, with the goals of internal cleansing and external expansion' (a Stanford Encyclopedia of Philosophy não tem verbete sobre fascismo); Griffin, como 'ultranacionalismo populista palingenético'; Eco lista 14 traços do 'Ur-Fascismo' (criticados como elásticos); Gentile fala em 'sacralização da política' com partido único, culto ao líder, economia corporativista e imperialismo. Extrema direita (Mudde, 2019): 'antissistema e hostil à democracia liberal'; divide-se em direita extrema (rejeita soberania popular e regra da maioria) e direita radical (aceita, mas ataca direitos de minorias, separação de poderes e Estado de direito); a direita radical populista combina nativismo, autoritarismo e populismo. Liberalismo e conservadorismo (SEP): para os liberais clássicos 'liberty and private property are intimately related', enquanto o liberalismo 'novo' ou 'social' contesta essa ligação; o conservadorismo 'mistrusts both a priori reasoning and revolution' e 'It is reaction and not conservatism that is inherently authoritarian' — por isso 'conservador' não é sinônimo de 'extrema direita'.
“O que distingue o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.”
“Neste sentido, os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão [Aufhebung] da propriedade privada.”
“centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo”
“Fascism is a form of political behavior marked by obsessive preoccupation with community decline, humiliation, or victimhood and by compensatory cults of unity, energy, and purity, in which a mass-based party of committed nationalist militants, working in uneasy but effective collaboration with traditional elites, abandons democratic liberties and pursues with redemptive violence and without ethical or legal restraints, with the goals of internal cleansing and external expansion”
“The leadership of the Communist Party of China is the defining feature of socialism with Chinese characteristics”
“Citizens' lawful private property is inviolable”
“The Republic of Cuba is governed by a socialist economic system based on ownership by all people of the fundamental means of production”
“The right of property is guaranteed”
“For classical liberals — 'old' liberals — liberty and private property are intimately related”
“It is reaction and not conservatism that is inherently authoritarian”
“Libertarians take individual freedom as the paramount political value”
Capítulo 3 · 1990 a 2021
Como se mede: a régua de Zucco & Power (1990-2021) e as posições de cada partido
A Brazilian Legislative Survey (Zucco & Power, Latin American Politics and Society, 2024) tem nove ondas (1990-2021) em que legisladores posicionam os partidos numa escala 1-10 com redação idêntica; as estimativas são reescaladas para aproximadamente -1 (esquerda) a +1 (direita), com 17.974 avaliações de 24 partidos por 1.031 legisladores e erro padrão de ~0,03-0,05; correlação de 0,97 com o survey de especialistas PREPPS. 'Centro' é definido como -0,25 a +0,25. Posições em 2021: PSOL -0,874; PCdoB -0,822; PT -0,691; PSB -0,427; PDT -0,356; Cidadania -0,014; PROS +0,032; MDB +0,137; PSDB +0,157; SD +0,190; PSD +0,296; PODE +0,386; DEM (hoje União) +0,431; PTB +0,455; PL +0,493; PP +0,510; Republicanos +0,550; PSC +0,596; Novo +0,711; PSL +0,803. Presidentes: Sarney 0,50; Collor 0,62; Itamar 0,13; FHC 0,18; Lula I-II -0,41; Dilma I -0,41; Dilma II -0,50; Temer 0,55; Bolsonaro 0,87, 'o presidente mais extremo da era democrática'. O PT moderou-se de -0,931 (1990) e -0,793 (2001) para -0,525 (2005) e voltou a -0,691 (2021); o PL ficou estável à direita por 30 anos (0,574 em 1990; mínimo 0,328 em 2009; 0,493 em 2021). Os autores observam polarização crescente e 'esvaziamento do centro', e que o PL 'voltou ao lado conservador nas ondas recentes'. Outras réguas (V-Party, PREPPS, Manifesto Project) e a autoposicionamento do eleitorado estão no capítulo seguinte; o Latinobarómetro 2024 coloca o Brasil entre os países com média acima de 5,0 (sem decimal informado) e o Chapel Hill Expert Survey não cobre o Brasil.
Capítulo 4 · 1990 a 2026-10-02
Outras réguas: V-Party, PREPPS, Manifesto Project e o que o eleitor diz de si
V-Party (V-Dem, v2, fev/2022): 9-10 especialistas por partido-ano posicionam os partidos na economia de 0 ('Far-left') a 6 ('Far-right'); pela definição do codebook, a esquerda econômica quer 'government to play an active role in the economy' e a direita, 'privatization, lower taxes, less regulation'. Em 2018: PT 1,39 (entre 'esquerda' e 'centro-esquerda'), PSB 1,84, PDT 1,92, MDB 3,66, PSD 4,18, PSDB 4,20, PR/PL 4,44, Republicanos 4,52, DEM 4,59, PP 4,79 e PSL (partido de Bolsonaro em 2018) 5,37, entre 'direita' e 'extrema direita'; o intervalo de credibilidade do PSL não se sobrepõe ao de nenhum outro partido. O PT moveu-se de 1,04 (1990) para 1,82 (2010) e 1,39 (2018). Na dimensão democrática de 2018, o PSL tinha o maior antipluralismo do sistema (0,95 de 1), pluralismo 1,89 de 4 e a menor rejeição da violência (1,92 de 4); o PT tinha o maior índice de populismo (0,78) e um dos maiores compromissos com o pluralismo (3,90 de 4; antipluralismo 0,03). PSOL, PCdoB, Novo e o PL pós-2021 não foram codificados (limiar de inclusão; não há onda de 2022). PREPPS (2018-19), survey de especialistas, escala geral de 1 (esquerda) a 20 (direita): PSOL 1,66; PT 5,04; PDT 6,66; PSB 7,97; Rede 9,33; PV 9,77; PTB 13,88; MDB 14,66; PSDB 14,77; PSD 15,81; Podemos 15,95; Republicanos 16,81; Temer 16,82; PP 17,00; PR (atual PL) 17,05; DEM 18,09; Novo 18,31; PSL 18,35; Bolsonaro 19,26. As três réguas (BLS, PREPPS, V-Party) dão quase a mesma ordem (exceção: PTB) e, em todas, o PT fica longe do polo esquerdo (PSOL) e PSL/Bolsonaro ocupam o polo direito. Manifesto Project: codifica programas presidenciais brasileiros de 1989 a 2018 (inclusive Bolsonaro 2018) e registra o PL nas coligações de Lula de 2002 e 2006 (vice José Alencar); Tarouco (2022) mostra que a polarização programática cai até 2010 e atinge o máximo em 2018, puxada pelo programa de Bolsonaro (conservadorismo e liberdade de mercado) e pelo do PT (bem-estar: 14,4% das frases em 2010, 19,2% em 2018), e não usa a escala RILE por ter sido 'questionada em outros trabalhos'. O eleitor: no Datafolha de dez/2025 (autodeclaração, escala 1 a 7), 46% se dizem de direita ou centro-direita (35% + 11%), 29% de esquerda ou centro-esquerda (22% + 7%) e 17% de centro; no índice de valores do Datafolha (jun/2026), direita 44%, esquerda 39%, centro 17% (2013: 39% x 41%; 2014: 45% x 35%; 2017: 40% x 41%; 2022: 34% x 49%), mas no eixo econômico isolado 46% estão à esquerda e 28% à direita. Autodeclaração e índice de valores não são comparáveis entre si. Latinobarómetro 2026 (02/10/2026): classifica o governo do Brasil entre os 4 'gobiernos de izquierda' (com México, Guatemala e Uruguai), distinto das 3 'dictaduras' (El Salvador, Venezuela, Nicarágua); apoio à democracia no Brasil de 41%, o segundo menor da região; o informe não publica a média de autoposicionamento por país.
“Parties on the economic left want government to play an active role in the economy. This includes higher taxes, more regulation and government spending and a more generous welfare state. Parties on the economic right emphasize a reduced economic role for government: privatization, lower taxes, less regulation, less government spending, and a leaner welfare state.”
“Please locate each party on a general left-right dimension, taking all aspects of party policy into account. Left (1) Right (20)”
“O MP também calcula a escala RILE, da dimensão esquerda-direita, que não foi incorporada na presente análise por já ter sido questionada em outros trabalhos”
“cuando se ideologiza la calificación de una democracia, se daña la [democracia]”
Capítulo 5 · 1922 a 2021-11-30
Raízes históricas no Brasil: PCB (1922), Intentona (1935), 1964, PT (1980), PL (1985/2006)
O PCB foi fundado em março de 1922. Em novembro de 1935 Prestes liderou revolta militar que se tornou o 'mito fundador da ameaça comunista'; em novembro de 1937, sob pretexto de um complô comunista (Plano Cohen), instaurou-se o Estado Novo; o registro do PCB foi cassado em 1947 e o partido ficou ilegal até 1985; Prestes e o PCB serviram de pretexto para o golpe de 1964. O uso de 'comunista' como acusação política é herança direta de 1935-37 e de 1964. O PCdoB (cisão de 1962) é aliado do PT no plano federal desde a Frente Brasil Popular de 1989 (PT, PCdoB e PSB) e integra desde 2022 a federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV). O PT foi fundado em 1980 (TSE nº 13); a Carta ao Povo Brasileiro (22/06/2002) marcou a virada ao centro: 'Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país'; 'Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente'. O PSOL nasceu em 2004 'em protesto contra a moderação do PT durante o primeiro governo Lula'. O PL original foi fundado em 25/06/1985 por Álvaro Valle; Valdemar Costa Neto assumiu em 2000; fusão com o PRONA em 26/10/2006 (Partido da República); volta ao nome PL em 07/05/2019; Bolsonaro filiou-se em 30/11/2021. O PL integrou as coligações de Lula em 2002 e 2006 (vice José Alencar), segundo a lista de partidos do Manifesto Project. O PL que Bolsonaro adotou era um partido de direita clientelista de Centrão (BLS ≈ +0,4); a radicalização medida pela BLS está no movimento (PSL +0,80; Bolsonaro +0,87), que depois ocupou a sigla.
“Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país”
Capítulo 6 · 2003 a 2026-04-26
O PT no poder: o que fez e o que isso diz sobre os rótulos
O governo Lula 3 chegou ao fim de 2025 com 50 leilões federais de rodovias, portos e aeroportos, o maior volume da história (45 de Bolsonaro, 26 de FHC), R$ 247 bi previstos em rodovias; 84% do investimento em infraestrutura de 2025 era privado (Abdib). O Ibovespa fechou 2025 em 161.125 pontos (+33,95%, 32 recordes); o Itaú lucrou R$ 46,8 bi, 'o maior resultado da história de um banco brasileiro'. O Banco Central autônomo (LC 179/2021, do governo Bolsonaro; STF 8x2) foi mantido: Lula disse 'Se eu tivesse voto, eu era contra. Mas tá aí, vai ficar' e Galípolo completou um ano 'com uma postura ainda mais ortodoxa' que a do antecessor. Elementos redistributivos: isenção de IR até R$ 5 mil com imposto mínimo de até 10% sobre renda acima de R$ 600 mil/ano e 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil/mês (sancionada em 2025); fim da paridade de importação na Petrobras (16/05/2023). Em 22/09/2023 Lula disse ao PC Chinês que o PT tem 'fortes laços' com o partido; em 29/07/2023 disse que ser chamado de comunista não o ofende, mas nazista ou terrorista sim. O 8º Congresso do PT (26/04/2026) definiu 'horizonte programático o socialismo democrático', com 'acenos ao centro'. Comparação quantitativa: a carga tributária total do Brasil foi de 33,7% do PIB em 2024, a maior da América Latina e próxima da média da OCDE (34,1%; média latino-americana 21,7%; Cuba 22,9%); o consumo final do governo geral (18,8% do PIB, Banco Mundial) fica abaixo de Suécia (26,6), França (24,2), Alemanha (22,0) e Espanha (19,3) e também de Cuba (24,8); mas o Gini brasileiro (50,3 em 2024) é muito maior que o das social-democracias europeias (26,5 a 33,9) e de Uruguai (40,0) e Chile (43,0). O indicador de impostos do Banco Mundial (GC.TAX.TOTL.GD.ZS) cobre só o governo central e exclui contribuições sociais, por isso não serve para comparar carga tributária. O programa de Lula para 2026 ('Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo', 84 páginas, 13 diretrizes) foi registrado no TSE em 07-08/08/2026; as fontes que o resumem não citam a palavra 'socialismo' (o texto integral não foi lido). Nenhum critério definidor de comunismo (supressão da propriedade burguesa, banco estatal monopolista, propriedade pública como base do sistema, partido dirigente inscrito na Constituição) está presente; o padrão (regra fiscal + BC autônomo + concessões + transferência de renda + imposto sobre alta renda) é social-democrata. Comparação: a Venezuela chavista é classificada como 'autoritarismo competitivo' e esquerda radical, não comunismo.
“Se eu tivesse voto, eu era contra. Mas tá aí, vai ficar”
“horizonte programático o socialismo democrático”
“In 2024, tax-to-GDP ratios in the LAC region ranged from 9.2% in Guyana to 33.7% in Brazil”
Capítulo 7 · 2018 a 2026-08-14
O bolsonarismo e o PL: direita radical populista, o debate 'fascista' e o programa de 2026
Zanotti, Rama & Tanscheit (2023) tratam Bolsonaro como 'primeiro presidente PRR da região': nativismo como exclusão racial/étnica, autoritarismo em 'lei e ordem', elogio à ditadura e conservadorismo moral, populismo antipetista; eleitores brancos, evangélicos, de renda mais alta, favoráveis a 'mão dura' e com menor apego à democracia. Camila Rocha descreve a 'nova direita' ultraliberal-conservadora (2006-2010) e estima o núcleo duro do bolsonarismo em 12-15% do eleitorado. Lilia Schwarcz (2021) chama o bolsonarismo de 'movimento retrógrado, de extrema direita, populista e tecnocrata'; Esther Solano falou em 'espécie de pinochetismo' (2018); nos textos localizados, nenhuma das duas o classifica como 'fascista' em sentido estrito. Nos dados do V-Party de 2018 (anteriores ao 8 de janeiro), o PSL de Bolsonaro tinha o maior índice de antipluralismo do sistema (0,95 de 1), base empírica para a distinção de Mudde entre direita radical e direita extrema. Debate 'fascista': a favor, 8 acadêmicos da USP (2020) e o projeto da PUC-SP (~40 pesquisadores); com cautela, Casarões (FGV), Magalhães (FAAP/PUC-SP) e Caldeira Neto (UFJF), do Observatório da Extrema Direita, que lembram que o governo incluía liberais como Guedes; Emilio Gentile considera 'um equívoco'; categorias intermediárias: 'wannabe fascism' (Finchelstein), 'Fascism Lite', 'neofascismo'. Paxton: um fenômeno não precisa caber na fôrma europeia para ser classificado como fascista ou neofascista. Levitsky elogiou no Senado (12/08/2025) a resposta do STF ao 8 de janeiro. Em 11/09/2025 o STF condenou Bolsonaro (4x1) por tentativa de golpe; trânsito em julgado em 25/11/2025. PL: 121 deputados e 29 senadores (out/2026); classificação enciclopédica 'direita a extrema direita'; antes de 2021, Centrão. Programa 2026 de Flávio ('Para o Brasil Vencer o Atraso', 13/08/2026, 9 eixos): PCC/CV/milícias como 'narcoterroristas', maioridade penal aos 16, castração química, 1 milhão de câmeras com reconhecimento facial; revisar a reforma tributária e reduzir impostos; escolas cívico-militares e vouchers; meta de 4% a.a., R$ 900 bi em infraestrutura; mudanças no STF, fim da reeleição; corte de 10 ministérios e retomada das desestatizações. Flávio mantém a referência liberal de Guedes e diz que o Bolsa Família 'é direito adquirido', mas não deve ser 'o fim da estrada'. Perfil: liberal na economia, autoritário/punitivista nos valores; sem proposta de regime militar ou suspensão de eleições.
Parte da academia (USP, PUC-SP): o bolsonarismo reúne ultranacionalismo, aceitação da violência, intolerância ao dissenso e culto ao líder, traços fascistas.
Outra parte (UFJF, Gentile) e o próprio PL: o conceito de fascismo é estreito; o governo incluía liberais; o partido disputa eleições e seu programa é liberal na economia e conservador em segurança.
“O bolsonarismo é um movimento retrógrado, de extrema direita, populista e tecnocrata”
“é direito adquirido do povo brasileiro”
Capítulo 8 · 2020-05 a 2026-07
O que as checagens dizem sobre os rótulos
'Lula assumiu ser comunista' = FALSO (Aos Fatos, 30/09/2024): montagem de dois discursos de 2023 em que Lula não afirma ser comunista. 'Lula quer implantar comunismo chinês' = ENGANOSO (Comprova/Metrópoles, 21/07/2022): junta cenas de agressão em banco na China (2016) a entrevista de 2021 em que Lula elogia o desenvolvimento chinês. 'Apoiadores de Bolsonaro fizeram saudação nazista' = FALSO (Aos Fatos, mai/2020): era oração com imposição de mãos. 'Bolsonaro se alistou no exército nazista' = FALSO (Aos Fatos, fev/2022): gravação do CQC (2012) editada. 'Bolsonaro é fascista' não é checável como fato; é classificação acadêmica contestada. Não foram encontradas checagens com os enunciados 'PT quer implantar ditadura' e 'PL quer ditadura militar'. A palavra 'ditadura' circula nos dois lados como juízo político: Flávio Bolsonaro chamou Lula de 'projeto de ditador' (01/08/2026) e disse que o pai é o 'último obstáculo' contra uma ditadura (ago/2026); José Dirceu (PT) disse que Flávio 'é golpista como o pai'. Essas frases não são enunciados factuais checáveis; o checável é a condenação judicial de Bolsonaro por tentativa de golpe, de um lado, e a ausência de ato ou proposta de suspensão de eleições, do outro; a Lupa documenta (jul/2026) que a desinformação eleitoral recorre a episódios históricos de golpes e narrativas de intervenção militar, e estudo sobre 2022 aponta que 'informações fraudulentas em favor a pautas ou candidatos conservadores foram mais comuns'. Quadro para o leitor: (a) 'PT é comunista' — errado pelas definições e pelas políticas; (b) 'PT quer ditadura' — sem evidência; (c) 'Bolsonaro é fascista' — contestado; (d) 'Bolsonaro é nazista' — falso; (e) 'PL quer ditadura militar' — exagerado quanto ao programa, mas o líder do partido foi condenado por tentativa de golpe.
“projeto de ditador”
“último obstáculo”
“é golpista como o pai”
O que cada lado diz hoje
“Lula assumiu ser comunista / quer implantar o comunismo chinês no Brasil”
Falso“Bolsonaro é fascista”
OpiniãoPalavras difíceis
- Esquerda / Direita
- Rótulos nascidos da disposição dos assentos na Assembleia francesa de 1789 (direita: defensores do veto absoluto do rei; esquerda: limitadores do poder real); hoje associam-se, grosso modo, a igualdade/mudança vs. ordem/hierarquia/tradição.
- Centro (na BLS)
- Partido cuja posição na escala de Zucco & Power (-1 a +1) fica entre -0,25 e +0,25; em 2021: MDB, PSDB, Cidadania, PROS, SD, PV.
- Comunismo
- Doutrina de Marx/Engels cuja fórmula é a 'supressão da propriedade privada' (burguesa), com crédito centralizado em banco estatal monopolista; na prática constitucional de Cuba e China, o que distingue o sistema é a propriedade pública dos meios de produção como 'base' e a direção do Partido Comunista inscrita na Constituição — não a abolição literal de toda propriedade privada (a China protege a 'propriedade privada legal', art. 13; Cuba reconhece a privada 'complementar', art. 22).
- Socialismo
- Sistema em que 'o grosso dos meios de produção está sob controle social e democrático' (SEP); sem controle democrático é 'estatismo, não socialismo'.
- Social-democracia
- Estratégia de 'domar o capitalismo' via governos eleitos, seguro social e bens públicos, mantendo a propriedade privada; o Estado de bem-estar é um híbrido capitalista com 'elementos socialistas'.
- Socialismo democrático
- Via reformista/eleitoral; autodefinição programática do PT no 8º Congresso (2026): 'horizonte programático o socialismo democrático'.
- Liberalismo econômico
- Defesa de mercados livres, menos Estado, privatizações e impostos baixos; no Brasil associado a Paulo Guedes e ao Novo (+0,711 na BLS 2021). Na SEP (verbete 'Liberalism', rev. 25/02/2026): 'For classical liberals — old liberals — liberty and private property are intimately related'.
- Liberalismo social ('new', 'revisionist', 'welfare state' ou 'social justice' liberalism)
- Corrente que, segundo a SEP (§2.2), 'challenges this intimate connection between personal liberty and a private property based market order': defende liberdades civis e direitos individuais com intervenção estatal para garantir igualdade de oportunidades.
- Libertarianismo
- SEP (verbete 'Libertarianism', rev. 07/08/2023): 'Libertarians take individual freedom as the paramount political value'; defendem 'an economic order based on private property rights, freedom of contract, and voluntary cooperation', com o Estado limitado a 'the enforcement of a system of rights that facilitate socioeconomic cooperation, and little else' (Estado mínimo de Nozick).
- Conservadorismo
- Abordagem que 'desconfia tanto do raciocínio a priori quanto da revolução' e vê as tradições 'não como estáticas, mas em fluxo suave e gradual' (SEP, verbete 'Conservatism', rev. 18/07/2025); a SEP distingue conservadorismo de reação e do 'right-wing radicalism': 'It is reaction and not conservatism that is inherently authoritarian' — por isso 'conservador' e 'extrema direita' não são sinônimos.
- Populismo
- Visão do 'povo puro' contra 'elites corruptas'; pode ser de direita ou de esquerda (síntese a partir de Mudde).
- Nativismo
- Mudde: o Estado deve ser habitado pelo grupo 'nativo'; no Brasil aparece como exclusão racial/étnica, não anti-imigração.
- Autoritarismo (como traço ideológico)
- Crença numa sociedade estritamente ordenada em que desafios à autoridade são punidos severamente ('lei e ordem').
- Extrema direita (far right)
- Família antissistema e hostil à democracia liberal; divide-se em direita radical e direita extrema (Mudde).
- Direita radical (populista)
- Aceita soberania popular e regra da maioria, mas ataca direitos de minorias, separação de poderes e Estado de direito; combina nativismo, autoritarismo e populismo.
- Direita extrema
- Rejeita soberania popular e regra da maioria; é revolucionária/antidemocrática (Mudde).
- Fascismo
- Paxton ('The Anatomy of Fascism', 2004, p. 218): 'a form of political behavior marked by obsessive preoccupation with community decline, humiliation, or victimhood and by compensatory cults of unity, energy, and purity, in which a mass-based party of committed nationalist militants, working in uneasy but effective collaboration with traditional elites, abandons democratic liberties and pursues with redemptive violence and without ethical or legal restraints, with the goals of internal cleansing and external expansion'; Griffin: 'ultranacionalismo populista palingenético'. A Stanford Encyclopedia of Philosophy não tem verbete 'Fascism' (verificado em 21/10/2026).
- Nazismo
- Variante alemã do fascismo com racismo biológico e antissemitismo exterminador como núcleo (definição de trabalho).
- Autoritarismo competitivo
- Regime com eleições, mas campo tão desnivelado pelo governo que a oposição só vence alguns cargos; aplicado à Venezuela chavista.
- Centrão
- Bloco de partidos de centro/centro-direita pragmáticos e clientelistas (PP, Republicanos, PL pré-2021, PSD).
- Bolsonarismo
- Movimento social de direita radical populista em torno de Jair Bolsonaro, distinto do Centrão; núcleo duro estimado em 12-15% do eleitorado (Rocha).
- Antipetismo
- Identidade negativa em relação ao PT; principal variável explicativa do voto em Bolsonaro em 2018.
- V-Party (V-Dem)
- Base de dados do V-Dem Institute (v2, fev/2022) em que 9-10 especialistas por partido-ano codificam partidos de 1990 a 2018; posição econômica de 0 (extrema esquerda) a 6 (extrema direita) e índices de populismo e antipluralismo de 0 a 1.
- Antipluralismo (V-Party)
- Índice de 0 a 1 que agrega falta de compromisso com eleições livres e multipartidárias, desrespeito a oponentes, a direitos de minorias e baixa rejeição da violência; em 2018, PSL 0,95 e PT 0,03.
- PREPPS
- Survey de especialistas (Wiesehomeier, Singer & Ruth-Lovell; campo no outono de 2018 e meados de 2019) que posiciona partidos e presidentes numa escala geral de 1 (esquerda) a 20 (direita).
- Manifesto Project / RILE
- Projeto do WZB que codifica frase a frase programas eleitorais; para o Brasil cobre programas presidenciais de 1989 a 2018. A literatura brasileira que o usa (Tarouco, 2022) não recomenda a escala esquerda-direita RILE, 'questionada em outros trabalhos'.
- Brazilian Legislative Survey (BLS)
- Survey de deputados e senadores (Power & Zucco), nove ondas 1990-2021, em que parlamentares posicionam partidos numa escala 1-10 reescalada para -1 (esquerda) a +1 (direita).
Perguntas frequentes
Fontes
- 1Wikipedia (en) — fonte secundáriaImprensa · acesso em 21/10/2026
- 2Vermelho (PCdoB)Fonte partidária · acesso em 21/10/2026
- 3Marxists Internet Archive (texto de Marx/Engels)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 4CECC (EUA)Oficial · acesso em 21/10/2026
- 5Revista Universidad Sergio ArboledaInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 6Wikipedia (en) — fonte secundáriaImprensa · acesso em 21/10/2026
- 7OER ProjectInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 8Constitute ProjectInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 9Constitute ProjectInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 10Constitute ProjectInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 11Stanford Encyclopedia of PhilosophyInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 12Stanford Encyclopedia of PhilosophyInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 13Stanford Encyclopedia of PhilosophyInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 14Resenha CríticaInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 15Stanford Encyclopedia of PhilosophyInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 16Cambridge CoreInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 17Cambridge Core (material suplementar)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 18El Mundo (El Salvador)Imprensa · acesso em 21/10/2026
- 19Redalyc / Opinião PúblicaInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 20V-Dem InstituteInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 21V-Dem (vdemdata, GitHub)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 22Harvard Dataverse (PREPPS)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 23Manifesto Project (WZB)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 24Revista Estudos Avançados (USP)Instituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 25Diário de PernambucoImprensa · acesso em 21/10/2026
- 26CartaCapitalImprensa · acesso em 21/10/2026
- 27LatinobarómetroInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
- 28Correio Braziliense (blogs)Imprensa · acesso em 21/10/2026
- 29Portal Latino-Americano USPInstituto de pesquisa · acesso em 21/10/2026
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- 31Wikipedia (en) — fonte secundáriaImprensa · acesso em 21/10/2026
- 32Wikipedia (en) — fonte secundáriaImprensa · acesso em 21/10/2026
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- 36B3 Bora InvestirImprensa · acesso em 21/10/2026
- 37Aos FatosAgência de checagem · acesso em 21/10/2026
- 38CartaCapitalImprensa · acesso em 21/10/2026
- 39Jovem PanImprensa · acesso em 21/10/2026
- 40Correio Braziliense (edição impressa)Imprensa · acesso em 21/10/2026
- 41B3Oficial · acesso em 21/10/2026
- 42Jornal de BrasíliaImprensa · acesso em 21/10/2026
- 43BP MoneyImprensa · acesso em 21/10/2026
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